segunda-feira, julho 24, 2006

Benvindo a casa - Sanatório

Benvindo aonde o tempo está parado
Ninguém sai nem sairá
A lua está cheia, nunca parece mudar
Rotulados de desequilibrados mentais
Sonhar a mesma coisa a cada noite
A nossa liberdade ao nosso alcance
Sem portas trancadas, sem janelas gradeadas
Sem nada que faça o meu cérebro parecer marcado

Dorme meu amigo e irás ver
Esse sonho é a minha realidade
Eles mantêm-me preso nesta cela
Não vêem que é por isso que o meu cérebro diz Raiva

Sanatório, deixem-me estar...
Sanatório, deixem-me em paz!...

Construo o meu medo do que está lá por fora
E não consigo respirar o ar livre
Sussurrando coisas para o meu cérebro
Assegurando-me que estou insano
Eles pensam que as nossas mentes estão nas suas mãos
Mas um uso violento leva a planos violentos
Mantém-no atado, faz-lhe bem
Está a ficar melhor, não parece?

Não nos podem mais manter dentro
Oiçam, foda-se, nós vamos vencer
Eles vêem tudo certo, eles vêem tudo bem
Mas eles pensam que isto nos salva do nosso Inferno

Sanatório, deixem-me estar...
Sanatório, deixem-me em paz!...

Medo de viver mais
Nativos impacientam-se agora
Motim no ar
Há umas mortes por fazer
Espelho olha de volta duramente
Matar, é uma palavra tão simpática
Parece a única maneira
de vos voltar a alcançar.

James Hetfield (trad., in Master of Puppets)

Tormentos internos

Ao fitares as profundezas da escuridão
Ilusões da tua mente pressionada pelo horror
Erguendo-se numa planície de desolação
As correntes de bruma congelada são abaladas pelo sol
Viajando pelos céus desinteressados
Preparando esta derrota
Uma vez morto os teus olhos fecham-se para sempre
Só a escuridão vem cumprimentar os nossos apelos?

Encurralado na minha caveira, sanidades trancadas no interior
Não posso expressar as minhas sensações, a dor que devo esconder
O meu corpo possuído por uma força invisível
Estropiado para a vida
Ao tentar soar a minha voz...
Nenhuma dor física sentirás
Esta insanidade mental é real?

Nenhum futuro, uma obscenidade
Porque fui escolhido para sofrer?
Esperando que acorde e a praga me tenha abandonado a alma

Tentativas de discurso são afogadas em riso
Estremeço e ranjo os dentes em raiva... Porquê?...
Sem permissão para tomar decisões
Pudera eu ao menos dizer-lhes a todos que consigo pensar

Para lá da vida, erguer-me-ei novamente
Destruindo todos os que riram
Matando-os todos...
Capaz de pensar, flectir os membros, falar e socializar, viver a minha vida

Nick Holmes (trad., in Lost Paradise)

Tu disseste

Tu disseste "quero saborear o infinito"
Eu disse "a frescura das maçãs matinais revela-nos segredos insondáveis"
Tu disseste "sentir a aragem que balança os dependurados"
Eu disse "é o medo o que nos vem acariciar"
Tu disseste "eu também já tive medo. muito medo. recusava-me a abrir a janela, a transpôr o limiar da porta"
Eu disse "acabamos a gostar do medo, do arrepio que nos suspende a fala"
Tu disseste "um dia fiquei sem nada. um mundo inteiro por descobrir"
Eu disse "..."

Eu disse "o que é que isso interessa?"
Tu disseste "...nada"

Tu disseste "agora procuro o desígnio da vida. às vezes penso encontrá-lo num bater de asas, num murmúrio trazido pelo vento, no piscar de um néon. escrevo páginas e páginas a tentar formalizá-lo. depois queimo tudo e prossigo a minha busca"
Eu disse "eu não faço nada. fico horas a olhar para uma mancha na parede"
Tu disseste "e nunca sentiste a mancha a alastrar, as suas formas num palpitar quase imperceptível?"
Eu disse "não. a mancha continua no mesmo sítio, eu continuo a olhar para ela e não se passa nada"
Tu disseste "e no entanto a mancha alastra e toma conta de ti. liberta-te do corpo. tu é que não vês"
Eu disse "o que é que isso interessa?"
Tu disseste "...nada"

Eu disse "o que é que isso interessa?"
Tu disseste "...nada"

Adolfo Luxúria Canibal (in Primavera de Destroços)

Tudo o que sou não é mais do que abismo
em que uma vaga luz
com que sei que sou eu, e nisto cismo,
obscura me conduz.

Um intervalo entre não-ser e ser
feito de eu ter lugar
como o pó, que se vê o vento erguer,
vive de ele o mostrar.

Fernando Pessoa

Bóiam farrapos de sombra
em torno ao que não sei ser.
É todo um céu que se escombra
sem me o deixar entrever.

O mistério das alturas
desfaz-se em ritmos sem forma
nas desregradas negruras
com que o ar se treva torna.

Mas em tudo isto, que faz
o universo um ser desfeito,
guardei, como a minha paz,
a 'sp'rança, que a dor me traz
apertada contra o peito.

Fernando Pessoa