sexta-feira, abril 07, 2006

Crise lamentável

Gostava tanto de mexer na vida,
de ser quem sou - mas de poder tocar-lhe...
E não há forma: cada vez perdida
mais a destreza de saber pegar-lhe.

Viver em casa como toda a gente,
não ter juízo nos meus livros - mas
chegar ao fim do mês sempre com as
despesas pagas religiosamente.

Não ter receio de seguir pequenas
e convidá-las para me pôr nelas -
à minha Torre ebúrnea abrir janelas,
numa palavra, e não fazer mais cenas.

Ter força um dia para quebrar as roscas
desta engrenagem que emperrando vai.
- Não mandar telegramas ao meu Pai.
- Não andar por Paris, como ando, às moscas.

Levantar-me e sair - não precisar
de hora e meia antes de vir p'rà rua.
- Pôr termo a isto de viver na lua,
- Perder a frousse das correntes de ar.

Não estar sempre a bulir, a quebrar coisas
por casa dos amigos que frequento -
não me embrenhar por histórias duvidosas
que em fantasia apenas argumento.

Que tudo em mim é fantasia alada,
um crime ou bem que nunca se comete:
e sempre o Oiro em chumbo se derrete
por meu azar ou minha zoina suada...

Mário de Sá-Carneiro

quarta-feira, abril 05, 2006

Cárcere

As noites de solidão sob as estrelas No vazio do teu quarto
A casa encaixotada O soalho E as horríveis linhas paralelas até à parede
O nada absoluto Que te faz vomitar e te tortura
Nessa letargia de junkie sem tempo Fora do tempo

Tudo por um grama de pó
Não era isto a revolução
Não era esta a liberdade lisérgica que te estava prometida

E as cinzas vermelhas dos teus olhos Em contrabando de afectos
Sentindo o vácuo E o medo de não ter a merda do pó De acordar sem a merda do pó
Os músculos rígidos O poderoso nó no estômago Que te faz saltar as tripas
O medo de não poderes fugir de ti De não conseguires esquecer esse corpo

Tudo por um grama de pó
Não era isto a revolução
Não era esta a liberdade lisérgica que te estava prometida

Esse corpo que já não serve para nada Retalhado na sua cosmogonia
Que te tortura na sua inactividade Que te prende agora ao quotidiano metálico da prisão
Morto nos odores da humidade Dejecto pútrido Esperma
Em valsas sonhadas no ressonar da noite de cimento que te envolve

Adolfo Luxúria Canibal (in Nús)

Gumes (partes 1 e 8)

Na noite que se avizinha, um mar de gatos com cio invade os sotãos, ensanguentando as memórias com a dor pungente dos dias em que o gume, o terrível gume das horas afiadas, rasgava os espíritos. Já o clarão das ruas toldava os cérebros com angústias venenosas e vertigens de suicídios sonhadores, na vontade de fugir ao inóspito vazio do tempo da ausência...

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Assomados, com o andar titubeante das vítimas da realidade absoluta, desfalecemos em convulsões de electrochoque no turbilhão da engrenagem triturante que nos transportou em sucessivas oscilações sísmicas para o apaziguamento da indiferença e o amargo isolamento da solidão. Nada é o que era, nada foi o que sonhamos, apenas visões esfumadas ao contacto da memória, apenas imprecisas impressões de um tempo gasto pela usura. Tivemos o mundo, fomos o mundo...
Salve, cadáveres brancos da inocência!
Salve, corpos belos do amor!
Salve, feiticeiros da embriaguez permanente!
Salve, magos da existência não fragmentária!
Salve, pederastas do desejo, junkies do caos, prisioneiros da liberdade!
Salve, irreprimível lúdico!
Salve, criadores de vida, amantes da infância, viciados do presente!
Salve, orfãos perdidos!
Salve! Salve! Salve!

Adolfo Luxúria Canibal (in Nús)

segunda-feira, abril 03, 2006

De repente, como se um destino médico me houvesse operado de uma cegueira antiga com grandes resultados súbitos, ergo a cabeça, da minha vida anónima, para o conhecimento claro de como existo. E vejo que tudo quanto tenho feito, tudo quanto tenho pensado, tudo quanto tenho sido, é uma espécie de engano e de loucura. Maravilho-me do que consegui não ver. Estranho quanto fui e vejo que afinal não sou.
Olho, como numa extensão ao sol que rompe nuvens, a minha vida passada; e noto, com um pasmo metafísico, como todos os meus gestos mais certos, as minhas ideias mais claras, e os meus propósitos mais lógicos, não foram, afinal, mais que bebedeira nata, loucura natural, grande desconhecimento. Nem sequer representei. Representaram-me. Fui, não o actor, mas os gestos dele.
Tudo quanto tenho feito, pensado, sido, é uma soma de subordinações, ou a um ente falso que julguei meu, porque agi dele para fora, ou de um peso de circunstâncias que supus ser o ar que respirava. Sou, neste momento de ver, um solitário súbito, que se reconhece desterrado onde se encontrou sempre cidadão. No mais íntimo do que pensei não fui eu.
Vem-me, então, um terror sarcástico da vida, um desalento que passa os limites da minha individualidade consciente. Sei que fui erro e descaminho, que nunca vivi, que existi somente porque enchi tempo com consciência e pensamento. E a minha sensação de mim é a de quem acorda depois de um sono cheio de sonhos reais, ou a de quem é liberto, por um terramoto, da luz pouca do cárcere a que se habituara.
Pesa-me, realmente me pesa, como uma condenação a conhecer, esta noção repentina da minha individualidade verdadeira, dessa que andou sempre viajando sonolentamente entre o que sente e o que vê.
É tão difícil descrever o que se sente quando se sente que realmente se existe, e que a alma é uma entidade real, que não sei quais são as palavras humanas com que possa defini-lo. Não sei se estou com febre, como sinto, se deixei de ter a febre de dormidor da vida. Sim, repito, sou como um viajante que de repente se encontre numa vila estranha sem saber como ali chegou; e ocorrem-me esses casos dos que perdem a memória, e são outros durante muito tempo. Fui outro durante muito tempo - desde a nascença e a consciência -, e acordo agora no meio da ponte, debruçado sobre o rio, e sabendo que existo mais firmemente do que fui até aqui. Mas a cidade é-me incógnita, as ruas novas, e o mal sem cura. Espero, pois, debruçado sobre a ponte, que me passe a verdade, e eu me restabeleça nulo e fictício, inteligente e natural.
Foi um momento, e já passou. Já vejo os móveis que me cercam, os desenhos do papel velho das paredes, o sol pelas vidraças poeirentas. Vi a verdade um momento. Fui um momento, com consciência, o que os grandes homens são com a vida. Recordo-lhes os actos e as palavras, e não sei se não foram também tentados vencedoramente pelo Demónio da Realidade. Não saber de si é viver. Saber mal de si é pensar. Saber de si, de repente, como neste momento lustral, é ter subitamente a noção da mónada íntima, da palavra mágica da alma. Mas essa luz súbita cresta tudo, consome tudo. Deixa-nos nús até de nós.
Foi só um momento, e vi-me. Depois já não sei sequer dizer o que fui. E, por fim, tenho sono, porque, não sei porquê, acho que o sentido é dormir.

Bernardo Soares, Livro do Desassossego (Trecho 39, ed. Assírio e Alvim)

Dormi. Sonhei. No informe labirinto
que há entre a vida e a morte me perdi.
E o que, na vaga viagem, eu senti
com exacta memória não sinto.

Se quero achar-me em mim dizendo-o, minto.
A vasta teia, estive-a e não a vi.
Obscuramente me desconcebi.

F. Pessoa