sábado, novembro 19, 2011

The Night

Nada como um pouco de "Morphine" para fazer sonhar um pouco (:



Floresta em Sonho



Esta noite atravessava uma floresta a sonhar.
Ela estava cheia de horror. Seguindo a cartilha
Os olhos vazios, que nenhum olhar compreende.
Os bichos erguiam-se entre árvore e árvore
Esculpidos em pedra pelo gelo. Da linha
De abetos, ao meu encontro, através da neve
Vinha estalando, é isto um sonho ou são os meus olhos que a vêem,
Uma criança de armadura, coiraça e viseira,
A lança no braço. Cuja ponta faísca
No negro dos abetos, que bebe o sol.
O último vestígio do dia uma seta de ouro
Atrás da floresta do sonho, que me faz sinal de morrer.
E num piscar de olho, entre choque e dor,
O meu rosto olhou-me: a criança era eu.

Heiner Müller (trad. Adolfo Luxúria Canibal)

sábado, novembro 12, 2011

HORIZONTE

Ó mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mystério,
Abria em flôr o Longe, e o Sul sidério
'Splendia sobre as naus da iniciação. 

Linha severa da longínqua costa –
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e côres:
E, no desembarcar, há aves, flôres,
Onde era só, de longe a abstracta linha. 

O sonho é ver as fórmas invisíveis
Da distancia imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flôr, a ave, a fonte –
Os beijos merecidos da Verdade.


D. SEBASTIÃO,
REI DE PORTUGAL

Louco, sim, louco, porque quiz grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há. 

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nella ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver addiado que procria? 


O QUINTO IMPÉRIO

Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar! 

Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raíz –
Ter por vida a sepultura. 

Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem! 

E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será theatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou. 

Grécia, Roma, Christandade,
Europa – os quatro se vão
Para onde vae toda a edade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião? 


O DESEJADO

Onde quer que, entre sombras e dizeres,
Jazas, remoto, sente-te sonhado,
E ergue-te do fundo de não-seres
Para teu novo fado! 

Vem, Galaaz com pátria, erguer de novo,
Mas já no auge da suprema prova,
A alma penitente do teu povo
À Eucharistia Nova. 

Mestre da Paz, ergue teu gládio ungido,
Excalibur do Fim, em geito tal
Que sua Luz ao mundo dividido
Revele o Santo Gral! 


CALMA

Que cousa é que as ondas contam
E se não pode encontrar
Por mais naus que haja no mar?
O que é que as ondas encontram
E nunca se vê surgindo?
Este som de o mar praiar
Onde é que está existindo?

Ilha próxima e remota,
Que nos ouvidos persiste,
Para a vista não existe.
Que nau, que armada, que frota
Pode encontrar o caminho
À praia onde o mar insiste,
Se à vista o mar é sòzinho?

Haverá rasgões no espaço
Que dêem para outro lado,
E que, um d’elles encontrado,
Aqui, onde há só sargaço,
Surja uma ilha velada,
O paíz afortunado
Que guarda o Rei desterrado
Em sua vida encantada? 


TORMENTA

Que jaz no abysmo sob o mar que se ergue?
Nós, Portugal, o poder ser.
Que inquietação do fundo nos soergue?
O desejar poder querer. 

Isto, e o mystério de que a noite é o fausto...
Mas súbito, onde o vento ruge,
O relâmpago, pharol de Deus, um hausto
Brilha, e o mar 'scuro 'struge. 


PRECE

Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade. 

Mas a chamma, que a vida em nós creou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a occultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda. 

Dá o sopro, a aragem – ou desgraça ou ância –,
Com que a chamma do esforço se remoça,
E outra vez conquistemos a Distância –
Do mar ou outra, mas que seja nossa!


Fernando Pessoa (in Mensagem)

domingo, novembro 06, 2011

Fight Club (final scene)



quinta-feira, novembro 03, 2011

Anarquista Duval


Pela estrada fora vinha um homem
Encoberto pelas sombras da noite
Alguém lhe perguntou o nome
«Sou uma miragem,  Dizem que semeio o caos e a destruição
Como o vento semeia as papoilas
O meu nome é... Liberdade»

Vinha pela estrada fora a Liberdade
Encoberta pela noite das sombras
«Sabes quem eu sou?» perguntou ao candeeiro
«És uma miragem
E pertences ao livro dos sublinhados provocadores
Que são os poetas
Almas sonhadoras»

«Anarquista Duval:
Prendo-te em nome da lei!»
«E eu suprimo-te em nome da Liberdade!»

Sublinhados provocadores iam pela estrada fora
Carregando o livro das sombras
Da noite só restava o candeeiro
Encoberto

Adolfo Luxúria Canibal (in O.D., RAINHA DO ROCK & CRAWL)

O Sonho



Sinto que ora salto
Meu foguete some
Queimando espaço
Tudo vejo e abraço
A vaidade
Estou morando em pleno céu
Namorando o azul
Ando no espaço rouco
Meu foguete some
Deixando traços
Entre estrelas vejo
A liberdade
Fotografo todo céu
E revelo paz
Busco cores e imagens
Faltam pássaros e flores
Coração na mão
Corpo solto estou
Entre estrelas
Vou deitar neste luar
Indo de encontro ao riso
Do quarto minguante
E o sol queimando
A pele branca
Despertando, vejo a cama e meu amor
Acordado estou
Choro, choro, choro....

Egberto Gismonti