"Se calhar o meu problema é ter lido demasiado Pessoa."
R. Pires
Quando há equivalência entre gotas do mar de alma transposto.
- Recordo-me de dias assim em que o meu pai me levava à floresta. Comíamos amoras selvagens. Há mais de 20 anos. Eu era só um rapaz de 4 ou 5 anos. As folhas eram tão escuras e verdes! A erva tinha um cheiro doce sob o vento primaveril.
Fito-me frente a frente
Benvindo aonde o tempo está parado
Ao fitares as profundezas da escuridão
Tu disseste "quero saborear o infinito"
Tudo o que sou não é mais do que abismo
Bóiam farrapos de sombra
Gostava tanto de mexer na vida,
As noites de solidão sob as estrelas No vazio do teu quarto
Na noite que se avizinha, um mar de gatos com cio invade os sotãos, ensanguentando as memórias com a dor pungente dos dias em que o gume, o terrível gume das horas afiadas, rasgava os espíritos. Já o clarão das ruas toldava os cérebros com angústias venenosas e vertigens de suicídios sonhadores, na vontade de fugir ao inóspito vazio do tempo da ausência...
De repente, como se um destino médico me houvesse operado de uma cegueira antiga com grandes resultados súbitos, ergo a cabeça, da minha vida anónima, para o conhecimento claro de como existo. E vejo que tudo quanto tenho feito, tudo quanto tenho pensado, tudo quanto tenho sido, é uma espécie de engano e de loucura. Maravilho-me do que consegui não ver. Estranho quanto fui e vejo que afinal não sou.