quinta-feira, dezembro 01, 2011

"Se calhar o meu problema é ter lido demasiado Pessoa."

R. Pires

sábado, novembro 19, 2011

The Night

Nada como um pouco de "Morphine" para fazer sonhar um pouco (:



Floresta em Sonho



Esta noite atravessava uma floresta a sonhar.
Ela estava cheia de horror. Seguindo a cartilha
Os olhos vazios, que nenhum olhar compreende.
Os bichos erguiam-se entre árvore e árvore
Esculpidos em pedra pelo gelo. Da linha
De abetos, ao meu encontro, através da neve
Vinha estalando, é isto um sonho ou são os meus olhos que a vêem,
Uma criança de armadura, coiraça e viseira,
A lança no braço. Cuja ponta faísca
No negro dos abetos, que bebe o sol.
O último vestígio do dia uma seta de ouro
Atrás da floresta do sonho, que me faz sinal de morrer.
E num piscar de olho, entre choque e dor,
O meu rosto olhou-me: a criança era eu.

Heiner Müller (trad. Adolfo Luxúria Canibal)

sábado, novembro 12, 2011

HORIZONTE

Ó mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mystério,
Abria em flôr o Longe, e o Sul sidério
'Splendia sobre as naus da iniciação. 

Linha severa da longínqua costa –
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e côres:
E, no desembarcar, há aves, flôres,
Onde era só, de longe a abstracta linha. 

O sonho é ver as fórmas invisíveis
Da distancia imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flôr, a ave, a fonte –
Os beijos merecidos da Verdade.


D. SEBASTIÃO,
REI DE PORTUGAL

Louco, sim, louco, porque quiz grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há. 

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nella ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver addiado que procria? 


O QUINTO IMPÉRIO

Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar! 

Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raíz –
Ter por vida a sepultura. 

Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem! 

E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será theatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou. 

Grécia, Roma, Christandade,
Europa – os quatro se vão
Para onde vae toda a edade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião? 


O DESEJADO

Onde quer que, entre sombras e dizeres,
Jazas, remoto, sente-te sonhado,
E ergue-te do fundo de não-seres
Para teu novo fado! 

Vem, Galaaz com pátria, erguer de novo,
Mas já no auge da suprema prova,
A alma penitente do teu povo
À Eucharistia Nova. 

Mestre da Paz, ergue teu gládio ungido,
Excalibur do Fim, em geito tal
Que sua Luz ao mundo dividido
Revele o Santo Gral! 


CALMA

Que cousa é que as ondas contam
E se não pode encontrar
Por mais naus que haja no mar?
O que é que as ondas encontram
E nunca se vê surgindo?
Este som de o mar praiar
Onde é que está existindo?

Ilha próxima e remota,
Que nos ouvidos persiste,
Para a vista não existe.
Que nau, que armada, que frota
Pode encontrar o caminho
À praia onde o mar insiste,
Se à vista o mar é sòzinho?

Haverá rasgões no espaço
Que dêem para outro lado,
E que, um d’elles encontrado,
Aqui, onde há só sargaço,
Surja uma ilha velada,
O paíz afortunado
Que guarda o Rei desterrado
Em sua vida encantada? 


TORMENTA

Que jaz no abysmo sob o mar que se ergue?
Nós, Portugal, o poder ser.
Que inquietação do fundo nos soergue?
O desejar poder querer. 

Isto, e o mystério de que a noite é o fausto...
Mas súbito, onde o vento ruge,
O relâmpago, pharol de Deus, um hausto
Brilha, e o mar 'scuro 'struge. 


PRECE

Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade. 

Mas a chamma, que a vida em nós creou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a occultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda. 

Dá o sopro, a aragem – ou desgraça ou ância –,
Com que a chamma do esforço se remoça,
E outra vez conquistemos a Distância –
Do mar ou outra, mas que seja nossa!


Fernando Pessoa (in Mensagem)

domingo, novembro 06, 2011

Fight Club (final scene)



quinta-feira, novembro 03, 2011

Anarquista Duval


Pela estrada fora vinha um homem
Encoberto pelas sombras da noite
Alguém lhe perguntou o nome
«Sou uma miragem,  Dizem que semeio o caos e a destruição
Como o vento semeia as papoilas
O meu nome é... Liberdade»

Vinha pela estrada fora a Liberdade
Encoberta pela noite das sombras
«Sabes quem eu sou?» perguntou ao candeeiro
«És uma miragem
E pertences ao livro dos sublinhados provocadores
Que são os poetas
Almas sonhadoras»

«Anarquista Duval:
Prendo-te em nome da lei!»
«E eu suprimo-te em nome da Liberdade!»

Sublinhados provocadores iam pela estrada fora
Carregando o livro das sombras
Da noite só restava o candeeiro
Encoberto

Adolfo Luxúria Canibal (in O.D., RAINHA DO ROCK & CRAWL)

O Sonho



Sinto que ora salto
Meu foguete some
Queimando espaço
Tudo vejo e abraço
A vaidade
Estou morando em pleno céu
Namorando o azul
Ando no espaço rouco
Meu foguete some
Deixando traços
Entre estrelas vejo
A liberdade
Fotografo todo céu
E revelo paz
Busco cores e imagens
Faltam pássaros e flores
Coração na mão
Corpo solto estou
Entre estrelas
Vou deitar neste luar
Indo de encontro ao riso
Do quarto minguante
E o sol queimando
A pele branca
Despertando, vejo a cama e meu amor
Acordado estou
Choro, choro, choro....

Egberto Gismonti 

quarta-feira, outubro 26, 2011

Modinha



Não!
Não pode mais meu coração
Viver assim dilacerado
Escravizado a uma ilusão
Que é só desilusão

Ah, não seja a vida sempre assim
Como um luar desesperado
A derramar melancolia em mim
Poesia em mim

Vai, triste canção, sai do meu peito
E semeia a emoção
Que chora dentro do meu coração
Coração

Vinícius de Moraes

sexta-feira, outubro 21, 2011

Caffeine


Faith No More, in Angel Dust

domingo, outubro 15, 2006

- Recordo-me de dias assim em que o meu pai me levava à floresta. Comíamos amoras selvagens. Há mais de 20 anos. Eu era só um rapaz de 4 ou 5 anos. As folhas eram tão escuras e verdes! A erva tinha um cheiro doce sob o vento primaveril.
Quase 20 anos de combate impiedoso! Sem descanso! Sem dormir como os outros homens!
Ahh... E no entanto o vento primaveril sopra, Subotai. Já alguma vez sentiste tal vento?
- Ele sopra onde eu moro também... no Norte do coração de qualquer homem.
- Nunca é tarde demais, Subotai...
- Não. Seria conduzido de volta aqui um outro dia... em ainda pior companhia!
...
- Para nós, não há Primavera. Só o vento, aroma fresco antes da tempestade...

John Milius e Oliver Stone (trad., in Conan the Barbarian)

segunda-feira, agosto 14, 2006

Fito-me frente a frente
e conheço quem sou.
Estou louco, é evidente,
mas que louco é que estou?

É por ser mais poeta
que gente que sou louco?
Ou é por ter completa
a noção de ser pouco?

Não sei, mas sinto morto
o ser vivo que tenho.
Nasci como um aborto,
salvo a hora e o tamanho.

Fernando Pessoa

segunda-feira, julho 24, 2006

Benvindo a casa - Sanatório

Benvindo aonde o tempo está parado
Ninguém sai nem sairá
A lua está cheia, nunca parece mudar
Rotulados de desequilibrados mentais
Sonhar a mesma coisa a cada noite
A nossa liberdade ao nosso alcance
Sem portas trancadas, sem janelas gradeadas
Sem nada que faça o meu cérebro parecer marcado

Dorme meu amigo e irás ver
Esse sonho é a minha realidade
Eles mantêm-me preso nesta cela
Não vêem que é por isso que o meu cérebro diz Raiva

Sanatório, deixem-me estar...
Sanatório, deixem-me em paz!...

Construo o meu medo do que está lá por fora
E não consigo respirar o ar livre
Sussurrando coisas para o meu cérebro
Assegurando-me que estou insano
Eles pensam que as nossas mentes estão nas suas mãos
Mas um uso violento leva a planos violentos
Mantém-no atado, faz-lhe bem
Está a ficar melhor, não parece?

Não nos podem mais manter dentro
Oiçam, foda-se, nós vamos vencer
Eles vêem tudo certo, eles vêem tudo bem
Mas eles pensam que isto nos salva do nosso Inferno

Sanatório, deixem-me estar...
Sanatório, deixem-me em paz!...

Medo de viver mais
Nativos impacientam-se agora
Motim no ar
Há umas mortes por fazer
Espelho olha de volta duramente
Matar, é uma palavra tão simpática
Parece a única maneira
de vos voltar a alcançar.

James Hetfield (trad., in Master of Puppets)

Tormentos internos

Ao fitares as profundezas da escuridão
Ilusões da tua mente pressionada pelo horror
Erguendo-se numa planície de desolação
As correntes de bruma congelada são abaladas pelo sol
Viajando pelos céus desinteressados
Preparando esta derrota
Uma vez morto os teus olhos fecham-se para sempre
Só a escuridão vem cumprimentar os nossos apelos?

Encurralado na minha caveira, sanidades trancadas no interior
Não posso expressar as minhas sensações, a dor que devo esconder
O meu corpo possuído por uma força invisível
Estropiado para a vida
Ao tentar soar a minha voz...
Nenhuma dor física sentirás
Esta insanidade mental é real?

Nenhum futuro, uma obscenidade
Porque fui escolhido para sofrer?
Esperando que acorde e a praga me tenha abandonado a alma

Tentativas de discurso são afogadas em riso
Estremeço e ranjo os dentes em raiva... Porquê?...
Sem permissão para tomar decisões
Pudera eu ao menos dizer-lhes a todos que consigo pensar

Para lá da vida, erguer-me-ei novamente
Destruindo todos os que riram
Matando-os todos...
Capaz de pensar, flectir os membros, falar e socializar, viver a minha vida

Nick Holmes (trad., in Lost Paradise)

Tu disseste

Tu disseste "quero saborear o infinito"
Eu disse "a frescura das maçãs matinais revela-nos segredos insondáveis"
Tu disseste "sentir a aragem que balança os dependurados"
Eu disse "é o medo o que nos vem acariciar"
Tu disseste "eu também já tive medo. muito medo. recusava-me a abrir a janela, a transpôr o limiar da porta"
Eu disse "acabamos a gostar do medo, do arrepio que nos suspende a fala"
Tu disseste "um dia fiquei sem nada. um mundo inteiro por descobrir"
Eu disse "..."

Eu disse "o que é que isso interessa?"
Tu disseste "...nada"

Tu disseste "agora procuro o desígnio da vida. às vezes penso encontrá-lo num bater de asas, num murmúrio trazido pelo vento, no piscar de um néon. escrevo páginas e páginas a tentar formalizá-lo. depois queimo tudo e prossigo a minha busca"
Eu disse "eu não faço nada. fico horas a olhar para uma mancha na parede"
Tu disseste "e nunca sentiste a mancha a alastrar, as suas formas num palpitar quase imperceptível?"
Eu disse "não. a mancha continua no mesmo sítio, eu continuo a olhar para ela e não se passa nada"
Tu disseste "e no entanto a mancha alastra e toma conta de ti. liberta-te do corpo. tu é que não vês"
Eu disse "o que é que isso interessa?"
Tu disseste "...nada"

Eu disse "o que é que isso interessa?"
Tu disseste "...nada"

Adolfo Luxúria Canibal (in Primavera de Destroços)

Tudo o que sou não é mais do que abismo
em que uma vaga luz
com que sei que sou eu, e nisto cismo,
obscura me conduz.

Um intervalo entre não-ser e ser
feito de eu ter lugar
como o pó, que se vê o vento erguer,
vive de ele o mostrar.

Fernando Pessoa

Bóiam farrapos de sombra
em torno ao que não sei ser.
É todo um céu que se escombra
sem me o deixar entrever.

O mistério das alturas
desfaz-se em ritmos sem forma
nas desregradas negruras
com que o ar se treva torna.

Mas em tudo isto, que faz
o universo um ser desfeito,
guardei, como a minha paz,
a 'sp'rança, que a dor me traz
apertada contra o peito.

Fernando Pessoa

sexta-feira, abril 07, 2006

Crise lamentável

Gostava tanto de mexer na vida,
de ser quem sou - mas de poder tocar-lhe...
E não há forma: cada vez perdida
mais a destreza de saber pegar-lhe.

Viver em casa como toda a gente,
não ter juízo nos meus livros - mas
chegar ao fim do mês sempre com as
despesas pagas religiosamente.

Não ter receio de seguir pequenas
e convidá-las para me pôr nelas -
à minha Torre ebúrnea abrir janelas,
numa palavra, e não fazer mais cenas.

Ter força um dia para quebrar as roscas
desta engrenagem que emperrando vai.
- Não mandar telegramas ao meu Pai.
- Não andar por Paris, como ando, às moscas.

Levantar-me e sair - não precisar
de hora e meia antes de vir p'rà rua.
- Pôr termo a isto de viver na lua,
- Perder a frousse das correntes de ar.

Não estar sempre a bulir, a quebrar coisas
por casa dos amigos que frequento -
não me embrenhar por histórias duvidosas
que em fantasia apenas argumento.

Que tudo em mim é fantasia alada,
um crime ou bem que nunca se comete:
e sempre o Oiro em chumbo se derrete
por meu azar ou minha zoina suada...

Mário de Sá-Carneiro

quarta-feira, abril 05, 2006

Cárcere

As noites de solidão sob as estrelas No vazio do teu quarto
A casa encaixotada O soalho E as horríveis linhas paralelas até à parede
O nada absoluto Que te faz vomitar e te tortura
Nessa letargia de junkie sem tempo Fora do tempo

Tudo por um grama de pó
Não era isto a revolução
Não era esta a liberdade lisérgica que te estava prometida

E as cinzas vermelhas dos teus olhos Em contrabando de afectos
Sentindo o vácuo E o medo de não ter a merda do pó De acordar sem a merda do pó
Os músculos rígidos O poderoso nó no estômago Que te faz saltar as tripas
O medo de não poderes fugir de ti De não conseguires esquecer esse corpo

Tudo por um grama de pó
Não era isto a revolução
Não era esta a liberdade lisérgica que te estava prometida

Esse corpo que já não serve para nada Retalhado na sua cosmogonia
Que te tortura na sua inactividade Que te prende agora ao quotidiano metálico da prisão
Morto nos odores da humidade Dejecto pútrido Esperma
Em valsas sonhadas no ressonar da noite de cimento que te envolve

Adolfo Luxúria Canibal (in Nús)

Gumes (partes 1 e 8)

Na noite que se avizinha, um mar de gatos com cio invade os sotãos, ensanguentando as memórias com a dor pungente dos dias em que o gume, o terrível gume das horas afiadas, rasgava os espíritos. Já o clarão das ruas toldava os cérebros com angústias venenosas e vertigens de suicídios sonhadores, na vontade de fugir ao inóspito vazio do tempo da ausência...

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Assomados, com o andar titubeante das vítimas da realidade absoluta, desfalecemos em convulsões de electrochoque no turbilhão da engrenagem triturante que nos transportou em sucessivas oscilações sísmicas para o apaziguamento da indiferença e o amargo isolamento da solidão. Nada é o que era, nada foi o que sonhamos, apenas visões esfumadas ao contacto da memória, apenas imprecisas impressões de um tempo gasto pela usura. Tivemos o mundo, fomos o mundo...
Salve, cadáveres brancos da inocência!
Salve, corpos belos do amor!
Salve, feiticeiros da embriaguez permanente!
Salve, magos da existência não fragmentária!
Salve, pederastas do desejo, junkies do caos, prisioneiros da liberdade!
Salve, irreprimível lúdico!
Salve, criadores de vida, amantes da infância, viciados do presente!
Salve, orfãos perdidos!
Salve! Salve! Salve!

Adolfo Luxúria Canibal (in Nús)

segunda-feira, abril 03, 2006

De repente, como se um destino médico me houvesse operado de uma cegueira antiga com grandes resultados súbitos, ergo a cabeça, da minha vida anónima, para o conhecimento claro de como existo. E vejo que tudo quanto tenho feito, tudo quanto tenho pensado, tudo quanto tenho sido, é uma espécie de engano e de loucura. Maravilho-me do que consegui não ver. Estranho quanto fui e vejo que afinal não sou.
Olho, como numa extensão ao sol que rompe nuvens, a minha vida passada; e noto, com um pasmo metafísico, como todos os meus gestos mais certos, as minhas ideias mais claras, e os meus propósitos mais lógicos, não foram, afinal, mais que bebedeira nata, loucura natural, grande desconhecimento. Nem sequer representei. Representaram-me. Fui, não o actor, mas os gestos dele.
Tudo quanto tenho feito, pensado, sido, é uma soma de subordinações, ou a um ente falso que julguei meu, porque agi dele para fora, ou de um peso de circunstâncias que supus ser o ar que respirava. Sou, neste momento de ver, um solitário súbito, que se reconhece desterrado onde se encontrou sempre cidadão. No mais íntimo do que pensei não fui eu.
Vem-me, então, um terror sarcástico da vida, um desalento que passa os limites da minha individualidade consciente. Sei que fui erro e descaminho, que nunca vivi, que existi somente porque enchi tempo com consciência e pensamento. E a minha sensação de mim é a de quem acorda depois de um sono cheio de sonhos reais, ou a de quem é liberto, por um terramoto, da luz pouca do cárcere a que se habituara.
Pesa-me, realmente me pesa, como uma condenação a conhecer, esta noção repentina da minha individualidade verdadeira, dessa que andou sempre viajando sonolentamente entre o que sente e o que vê.
É tão difícil descrever o que se sente quando se sente que realmente se existe, e que a alma é uma entidade real, que não sei quais são as palavras humanas com que possa defini-lo. Não sei se estou com febre, como sinto, se deixei de ter a febre de dormidor da vida. Sim, repito, sou como um viajante que de repente se encontre numa vila estranha sem saber como ali chegou; e ocorrem-me esses casos dos que perdem a memória, e são outros durante muito tempo. Fui outro durante muito tempo - desde a nascença e a consciência -, e acordo agora no meio da ponte, debruçado sobre o rio, e sabendo que existo mais firmemente do que fui até aqui. Mas a cidade é-me incógnita, as ruas novas, e o mal sem cura. Espero, pois, debruçado sobre a ponte, que me passe a verdade, e eu me restabeleça nulo e fictício, inteligente e natural.
Foi um momento, e já passou. Já vejo os móveis que me cercam, os desenhos do papel velho das paredes, o sol pelas vidraças poeirentas. Vi a verdade um momento. Fui um momento, com consciência, o que os grandes homens são com a vida. Recordo-lhes os actos e as palavras, e não sei se não foram também tentados vencedoramente pelo Demónio da Realidade. Não saber de si é viver. Saber mal de si é pensar. Saber de si, de repente, como neste momento lustral, é ter subitamente a noção da mónada íntima, da palavra mágica da alma. Mas essa luz súbita cresta tudo, consome tudo. Deixa-nos nús até de nós.
Foi só um momento, e vi-me. Depois já não sei sequer dizer o que fui. E, por fim, tenho sono, porque, não sei porquê, acho que o sentido é dormir.

Bernardo Soares, Livro do Desassossego (Trecho 39, ed. Assírio e Alvim)

Dormi. Sonhei. No informe labirinto
que há entre a vida e a morte me perdi.
E o que, na vaga viagem, eu senti
com exacta memória não sinto.

Se quero achar-me em mim dizendo-o, minto.
A vasta teia, estive-a e não a vi.
Obscuramente me desconcebi.

F. Pessoa