sábado, novembro 19, 2011

Floresta em Sonho



Esta noite atravessava uma floresta a sonhar.
Ela estava cheia de horror. Seguindo a cartilha
Os olhos vazios, que nenhum olhar compreende.
Os bichos erguiam-se entre árvore e árvore
Esculpidos em pedra pelo gelo. Da linha
De abetos, ao meu encontro, através da neve
Vinha estalando, é isto um sonho ou são os meus olhos que a vêem,
Uma criança de armadura, coiraça e viseira,
A lança no braço. Cuja ponta faísca
No negro dos abetos, que bebe o sol.
O último vestígio do dia uma seta de ouro
Atrás da floresta do sonho, que me faz sinal de morrer.
E num piscar de olho, entre choque e dor,
O meu rosto olhou-me: a criança era eu.

Heiner Müller (trad. Adolfo Luxúria Canibal)